CASAS BAHIA: O NÚMERO QUE NINGUÉM LEU, MAS QUE VAI BATER NA PORTA DE TODO EMPRESÁRIO BRASILEIRO

Na semana passada, a Casas Bahia estampou as manchetes com um número que assusta: R$ 10,1 bilhões de prejuízo em um único trimestre. Fechamento de quase 300 lojas. Recuperação judicial. Dívida de R$ 17,3 bilhões. A reação natural foi a mesma de sempre diante de uma tragédia financeira: procurar um culpado, um erro de gestão, uma decisão errada.

Só que, se você parar para olhar o balanço com calma — e é exatamente isso que eu faço todos os dias — vai descobrir uma história bem mais interessante do que a manchete. E ela tem tudo a ver com o momento tributário que o Brasil está vivendo agora, no meio da transição da Reforma Tributária.

O prejuízo que engana

De cara, uma pergunta simples: como uma empresa perde R$ 10 bilhões em três meses e, no mesmo período, gera quase R$ 800 milhões em caixa e reduz sua dívida?

A resposta está num detalhe que a maioria dos brasileiros nunca aprendeu a ler, mas devia: a maior fatia desse prejuízo — R$ 5,7 bilhões, mais da metade— não foi dinheiro que saiu do caixa. Foi a baixa contábil de um crédito de imposto de renda diferido que a empresa tinha no balanço.

Explico. Quando uma empresa acumula prejuízos fiscais, a lei permite guardar esse “prejuízo” como uma espécie de desconto para pagar menos imposto no futuro, quando ela voltar a dar lucro. Isso vira um ativo no balanço — um crédito. O problema é que esse crédito só vale alguma coisa se a empresa realmente projetar lucro suficiente para usá-lo lá na frente. Quando a auditoria olha para o futuro e não enxerga esse lucro, a regra contábil obriga a apagar esse ativo do papel.

Não é a empresa pagando mais imposto. É a empresa — e sua auditoria — dizendo, por escrito, que não acredita mais no próprio futuro tributável no curto prazo. É um alerta mais grave do que parece, exatamente porque não aparece como “imposto pago” na manchete.

Essa é a primeira lição: número de prejuízo, sozinho, não conta a história. É preciso saber separar o que é caixa do que é contabilidade — e é aí que entra a leitura fiscal.

O que isso tem a ver com a Reforma Tributária

Aqui está o ponto que eu mais quero que você leve desta coluna: esse tropeço da Casas Bahia acontece exatamente no momento em que o Brasil troca de sistema tributário.

Desde janeiro de 2026 estamos no chamado “ano-teste” da Reforma. PIS, Cofins, IPI, ICMS e ISS vão dar lugar a dois tributos novos, CBS e IBS em um processo que só termina, de verdade, em 2033. Em 2027 já muda de forma concreta: PIS e Cofins somem, e entra a CBS valendo cheia.

Para o varejo, isso é faca de dois gumes. Por um lado, o novo modelo promete acabar com o efeito cascata dos impostos, permitindo aproveitar mais créditos ao longo da cadeia — isso, em tese, favorece indústria e comércio. Por outro lado, é exatamente o setor de margem apertada e giro alto, como o varejo, que mais sente qualquer solavanco na apuração desses créditos, porque parte do imposto pode ficar retido antes de a empresa conseguir compensá-lo, pressionando o capital de giro.

Ou seja: numa fase de transição tributária, quem não organiza a casa fiscal paga duas vezes. Paga o preço de operar num sistema em mudança e ainda corre o risco de deixar dinheiro na mesa, literalmente.

O caixa escondido que toda empresa brasileira tem — e não sabe

E aqui chegamos ao ponto mais prático desta coluna, o que eu digo para os meus clientes, pequeno ou grande: empresa brasileira tem dinheiro parado em créditos tributários que ela mesma esqueceu que tinha.

É público que, mesmo às vésperas da recuperação judicial, a própria Casas Bahia vinha usando como estratégia de sobrevivência a recuperação de depósitos judiciais e a monetização de créditos tributários acumulados, junto com a venda de outros ativos, como parte da carteira de crediário. Ou seja: mesmo uma empresa em situação crítica tinha caixa escondido em créditos fiscais e processos judiciais represados. E tentou usar isso para comprar tempo.

Mas há uma ressalva importante — e ela reforça, não enfraquece, a lição deste caso. O mesmo documento da companhia, na seção de Governança (ESG), confirma a instalação de um comitê independente para apurar alegadas liberações indevidas de créditos de ICMS em São Paulo, conforme Fato Relevante divulgado em 26 de março de 2026. A apuração, por si só, não significa que tenha havido irregularidade comprovada. Mas evidencia que crédito tributário não pode ser tratado apenas como dinheiro disponível: sua origem, legitimidade, documentação, aprovação e utilização precisam estar submetidas a controles rigorosos e governança independente.

Esse não é um privilégio de gigante do varejo. É a regra do jogo tributário brasileiro: décadas de tributos cumulativos, discussões judiciais e mudanças de interpretação da Receita deixaram, literalmente, bilhões de reais represados em créditos que empresas de todos os portes ainda não recuperaram. O exemplo mais conhecido é a chamada “tese do século”, em que o Supremo decidiu que o ICMS não deveria entrar na conta do PIS e da Cofins — uma tese que, sozinha, chegou a representar mais de R$ 250 bilhões em créditos possíveis para os cofres das empresas brasileiras.

 

O recado é direto: se uma reestruturação fiscal certa já vale ouro para uma varejista gigante em situação de crise, imagina o que vale para o pequeno e médio empresário que nunca sentou com um especialista para revisar cinco anos de guias de recolhimento.

Por que isso é assunto para todo empresário — não só para quem vende geladeira

Eu sei o que você está pensando: “isso é problema de varejo gigante, não é o meu caso”. Não é bem assim.

A transição da Reforma Tributária vai passar pela porta de toda empresa do país nos próximos anos — do pequeno comércio ao industrial, do prestador de serviço ao produtor rural. Neste segundo semestre, inclusive, empresas precisam decidir como vão apurar CBS e IBS a partir de 2027, o que já muda preço, margem e até relação com fornecedores.

O caso Casas Bahia não é sobre uma empresa que “quebrou”. É sobre um modelo de negócio que demorou para se adaptar a um consumidor que mudou de comportamento — e a um ambiente tributário que também está mudando. As duas coisas, junto com juros altos e crédito caro, formaram a tempestade perfeita.

A boa notícia é que isso é evitável. Diagnóstico fiscal não é burocracia, é estratégia de caixa. E caixa, nesse Brasil de juros nas alturas e reforma em transição, vale mais do que nunca.

Emanuelle Lemos

 

Emanuelle Lemos
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