A PRÓXIMA CAMADA DA INOVAÇÃO JÁ COMEÇOU
Durante muito tempo, falar em blockchain era praticamente sinônimo de falar em criptomoedas. O tema ganhou notoriedade em meio à volatilidade dos mercados, às promessas de enriquecimento rápido e às discussões regulatórias sobre ativos digitais. Contudo, reduzir blockchain a esse universo é ignorar uma transformação muito mais profunda.
Assim como a internet não se resume ao e-mail, blockchain não se resume ao Bitcoin.
Estamos diante de uma tecnologia capaz de criar ambientes de confiança distribuída, nos quais registros, transações e direitos podem ser compartilhados entre diferentes participantes sem depender de uma autoridade central. Essa característica tem potencial para alterar a forma como empresas estruturam negócios, firmam contratos, protegem ativos intangíveis e constroem novos modelos de governança.
É nesse contexto que ganha força a chamada Web3.
A Web3 representa mais do que uma nova versão da internet. Trata-se de uma mudança de paradigma. Se a Web 1.0 era baseada na informação e a Web 2.0 na interação, a Web3 adiciona um novo elemento: a propriedade digital. Usuários passam a deter ativos, identidades e direitos em ambientes descentralizados, enquanto empresas encontram novas formas de criar valor e desenvolver modelos de negócio. Ou seja, as aplicações vão muito além do mercado financeiro.
A tokenização de ativos permite representar digitalmente participações societárias, recebíveis, imóveis, créditos de carbono e até ativos de propriedade intelectual. Smart contracts automatizam a execução de obrigações previamente definidas, reduzindo custos operacionais e aumentando a previsibilidade das relações negociais. Redes blockchain oferecem mecanismos robustos de rastreabilidade, autenticidade documental e integridade de informações, características especialmente relevantes em cadeias produtivas complexas.
No ecossistema de inovação, essas possibilidades dialogam diretamente com startups, universidades, centros de pesquisa e investidores.
Projetos de deep tech passam a explorar novos modelos de financiamento. Empresas podem estruturar programas de incentivo e remuneração baseados em tokens. Plataformas descentralizadas criam alternativas para governança colaborativa por meio das chamadas DAOs (Decentralized Autonomous Organizations). Ao mesmo tempo, cresce a discussão sobre identidade digital descentralizada, propriedade de dados e interoperabilidade entre diferentes sistemas.
Naturalmente, a evolução tecnológica traz novos desafios jurídicos.
Quem responde por decisões tomadas em ambientes descentralizados? Como compatibilizar a imutabilidade dos registros em blockchain com direitos previstos na LGPD? Qual é o tratamento jurídico adequado para smart contracts? Como proteger ativos intangíveis que passam a circular em ambientes digitais tokenizados? Essas questões exigem uma atuação jurídica cada vez mais interdisciplinar, combinando propriedade intelectual, proteção de dados, direito societário, contratos e regulação.
Outro movimento merece atenção: a convergência entre inteligência artificial e blockchain.
À medida que sistemas de inteligência artificial passam a produzir conteúdo, executar decisões e consumir grandes volumes de dados, cresce a necessidade de mecanismos capazes de garantir rastreabilidade, transparência, integridade e comprovação da origem das informações utilizadas. Nesse contexto, a blockchain pode desempenhar um papel fundamental como infraestrutura de confiança, permitindo registrar autoria, evidenciar alterações, assegurar a integridade de registros e fortalecer mecanismos de auditoria.
Essa convergência entre IA e blockchain evidencia que o debate já não se limita aos criptoativos. Compreender blockchain e Web3 significa compreender como a economia digital está sendo reconstruída, com novos modelos de governança, propriedade, colaboração e geração de valor.
As organizações que conseguirem integrar essas tecnologias de forma estratégica terão não apenas ganhos de eficiência, mas também novas possibilidades de inovação, colaboração e geração de valor.
O futuro provavelmente não será totalmente descentralizado, mas é difícil imaginar que será construído sem blockchain.
MAYSA ZARDO

